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O cerco de Betúlia (Jd 6,7-15)

A tela de Judite e Holofernes datada de 1607 finalmente irá a leilão no salão do teatro Halle aux Grains em Toulouse no próximo 27 de junho.  Obra prima do pintor Michelangelo Merisi (1571-1610) mais conhecido por Caravaggio. Ela permaneceu 150 anos esquecida num sótão de um casarão em Toulouse e foi descoberta pelo leiloeiro Marc Labarbe   que junto com Eric Turquin serão responsáveis pela venda do quadro.  Este grande leilão será transmitido ao vivo para o mundo inteiro.  A tela ficou no quarto de Turquin enquanto aguardava o resultado das análises científicas necessárias, tais como, infravermelho, raios X, pigmentação e exame por vários especialistas que elucidaram a técnica de chiaroscuro para destacar o efeito das sombras das dobraduras do tecido.

O governo da França proibiu a exportação da tela aguardando a manifestação do Museu do Louvre que, finalmente, desistiu da participação no leilão face a estimativa calculada de lances acima de €100 milhões de euros (o Louvre possui apenas 15 milhões de euros anuais para aquisições). Os leiloeiros esperam arrecadar, no mínimo, cerca de R$ 650.000.000 (seiscentos e cinquenta milhões de reais) e especula-se que, eventualmente, poderá encostar nos €200 milhões de euros face a especulação que corre no mercado de arte. Esta obra de mais de 400 anos tornou-se célebre porque sobreviveu a guerras, traslados da Itália à Antuérpia, passando por Holanda, Bélgica, Áustria e França. O valor insuperável desta tela prende-se ao fato de existirem poucos Caravaggios espalhados pelo mundo.  Antes do leilão, esta tela foi exibida em Londres e será exposta na Galerie Kamel Mennour em Paris a partir de 4 de maio; depois seguirá para a  Gallery Adam Williams em Nova York onde ficará até 17 de maio.  Finalmente, seguirá para Toulouse exposta de 17 a 23 de junho, lá permanecendo até o dia do leilão.

Vamos à história e origem desta valiosa pintura:

Fustigados por Holofernes (general de Nabucodonosor) os israelitas, por serem adoradores do Deus único (nosso Deus uno e trino), não aceitavam os ídolos assírios e estavam morrendo de sede e fome pois o eunuco Bagoas havia sugerido a Holofernes impor guarda em todas as fontes e poços de Betúlia e impedir a entrada de alimentos.  Em cada fonte ou poço, cem guardas.  Cercados por trinta e quatro dias pelo poderoso exército de cento e vinte mil soldados e doze mil flecheiros, não havia como fugir. Sem esperança, com sede, as crianças desmaiavam, mulheres e adolescentes desfaleciam nas ruas.  Desesperados foram todos se apresentar a Ozias e uníssimo, disseram:

Deus seja juiz entre nós e ti, pois, recusando negociar a paz com os assírios, atraí até a desgraça sobre nós; e por isso entregou-nos Deus nas suas mãos e estamos nós esgotados pela sede.

Ozias, banhado em lágrimas, levantou-se e dirigindo à multidão de homens, mulheres, jovens e crianças respondeu:

 – Coragem meus irmãos! Esperemos ainda cinco dias a misericórdia do Senhor. Talvez se aplaque a sua cólera e dê glória ao seu nome. Caso passe cinco dias e não nos chegar socorro, nos entregaremos aos assírios para a escravidão.

A palavra do rei se fez ouvir e chegou aos ouvidos de Judite.  A jovem e bela viúva de Manassés nutria de grandes riquezas deixada pelo seu marido.  Indignada pela promessa de Ozias, desafiando Deus em entregar a cidade após cinco dias, convocou os anciões Cabris e Carmis.  Judite disse aos anciões:

– Como é possível que Ozias tenha consentido entregar a cidade aos assírios dentro de cinco dias? Quem sois vós para provocar assim o Senhor? O Senhor é paciente; peçamos perdão com lágrimas nos olhos pois Deus não ameaça e não se deixa arrastar, como os homens, à violência da cólera.

Ozias e os anciãos responderam:

– Tudo o que disseste é verdade. Roga a Deus por nós, porque és uma mulher santa e piedosa.

Judite disse-lhes:

– Se reconheceis que o que eu vos disse vem de Deus, examinai se vem igualmente dele o que eu resolvi fazer e orai para que Deus me ajude a realizar o meu designo. Ficai esta noite no portão da cidade e eu sairei com minha criada. Orai e não procureis saber o que eu vou fazer.

Antes de partir Judite entrou em seu oratório, colocou o seu cilício, cobriu a cabeça com cinzas e, prostrada, orou sua longa súplica a Deus. (Jt 9,1-18)

… olhai agora para o acampamento dos assírios, como vos dignastes outrora olhar para os egípcios, quando corriam armados atrás dos vossos servos, fiando-se nos seus carros, nos seus cavaleiros e na multidão dos seus combatentes. (Jt 9,6)

Após a oração voltou para a sua casa e chamou sua criada.  Retirou o cilício e suas vestes de viúva. Vestiu-se como para uma festa com todas as suas joias.  O Senhor aumentou-lhe a beleza e deu-lhe uma tal formosura que aos olhos de todos era um encanto incomparável. Ordenou que sua criada levasse um odre de vinho, uma garrafa de óleo, grãos torrados, figos secos, pão e queijo e partiu ao encontro do acampamento dos assírios. (Jt 10,1-5)

Depois de muito caminhar e descendo uma montanha ao raiar do dia, depararam com uma patrulha:

– Donde vens? E aonde vais? Judite respondeu:

– Sou uma israelita, fugi do meio deles porque vos desprezam não querendo render-se a vós para encontrar graça diante de vossos olhos. Irei apresentar-me ao príncipe Holofernes para revelar os segredos e indicar o caminho para a invasão, sem perder um homem sequer de seu poderoso exército.

Levaram-na até a tenda de Holofernes.  Ele ficou cativo de seus olhos e seus oficiais disseram-lhe:

– Quem poderia desprezar os hebreus que tem tão belas mulheres? Não são elas razão suficiente de lhes fazermos guerra?

Judite encontrou Holofernes repousando em seu leito sob um mosquiteiro de púrpura, bordado a ouro com esmeraldas e pedras preciosas. Anunciaram-na e ele saiu à entrada da tenda. Todos estavam admirados com a beleza de seu rosto. Ela prostrou-se diante dele, mas seus servos a levantaram. Então ele disse-lhe:

– Tranquiliza-te! Não temas em teu coração, pois nunca fiz mal algum a quem estivesse pronto a servir o rei Nabucodonosor, mas diga-me por que vieste para o meio de nós?

Judite continuou:

– O Senhor mandou-me a ti por causa dos pecados de meu povo e tu para eles tornaste um objeto de terror. A fome aperta-os e pela falta de água estão quase mortos; chegam até a matar seus animais para beber o seu sangue.

Holofernes completou:

–  Deus fez muito bem em te mandar antes do povo, a fim de que possas entregá-lo nas nossas mãos; tu serás grande na casa de Nabucodonosor.

Em seguida ordenou que levassem Judite onde estavam os seus tesouros e ordenou o que deveria servir em sua mesa. Entretanto, Judite respondeu:

– Não posso agora comer o que me mandaste servir para não agir contra a minha Lei; comerei do que trouxe comigo.

– … e quando acabarem as provisões que trouxeste contigo, que poderemos fazer por ti?

Judite replicou:

–  Por tua vida, meu senhor, juro que minha serva não gastará todas essas coisas, sem que antes meu Deus realize pelas minhas mãos o que resolvi fazer.

Judite foi conduzida até a tenda designada. Quando entrou ela pediu que lhe fosse permitido sair à noite e voltar antes do amanhecer para orar ao Senhor.

Assim sendo, Holofernes determinou que ela poderia entrar e sair como quisesse durante os próximos três dias.  À noite, no vale de Betúlia, orava ao Senhor Deus de Israel para que dirigisse seus passos para a libertação de seu povo. A   seguir retornava para sua tenda e ali permanecia em jejum até tomar a sua refeição pela tarde. (Jt 12,5-9)

No quarto dia Holofernes ofereceu um banquete aos seus oficiais para comemorar a extinção completa de comida e água na região da Judéia.  Ele chamou Bagoas à parte e solicitou:

– Vê se persuades a essa judia que consinta, espontaneamente, em tornar-se minha concubina.

Eunuco, cumprindo ordens, dirigiu-se à Judite e disse-lhe:

– Não tema a boa jovem entrar à presença de meu senhor, seria uma honra comer em sua companhia e beber o seu vinho alegremente.

Aparentando surpresa com o convite, rebateu:

– Quem sou eu para opor-me ao meu senhor? Farei tudo o que parecer bom e melhor aos seus olhos o que mais lhe agradar.

Trajada com o melhor requinte ela apresentou-se diante dele.  Holofernes agitou-se e apaixonado por sua beleza exclamou:

– Come e bebe alegremente pois encontraste graça aos meus olhos.

– Eu beberei senhor porque nunca em minha vida me senti tão engrandecida como hoje.

Entretanto, ela comeu e bebeu apenas o que sua serva preparou.  Holofernes alegre por tê-la junto dele, bebeu em demasia e desmaiou. Anoiteceu e os oficiais retornaram aos seus aposentos.

Só, nos aposentos com Holofernes desmaiado, Judite ordenou a escrava ficar fora vigiando. Junto ao leito dele, orou a Deus pedindo forças, tomou a espada dependurada na cabeceira do leito e o feriu, mortalmente, duas vezes na nuca, arrancando-lhe a cabeça. Chamou sua serva e aguardaram que todo o sangue escorresse da cabeça decepada. Entregou para sua serva meter um saco. Saíram como de costume da tenda, atravessaram o acampamento e contornaram o vale até alcançar as portas de Betúlia.  Exibiu a cabeça de Holofernes e todos se ajuntaram ao redor dela com tochas acessas e prontos para o ataque suicida.

No dia seguinte, quando o exército viu que Holofernes tinha sido decapitado todos perderam a razão e possuídos de terror puseram em fuga com os hebreus atrás.  Vitoriosos, trouxeram para Betúlia todos os pertences dos assírios, incluindo numeroso rebanho e enriqueceram com seus despojos.

Além de sua coragem, Judite juntava sua castidade pois desde a morte do marido não conheceu homem algum. Viveu cento e cinco anos e foi sepultada em Betúlia junto dele.

Quando Deus determina, o impossível acontece.  Lembramos que no século XVI o jesuíta Francisco Xavier, sozinho e desafiando a morte, enfrentou o exército dos  violentos  badegás na defesa dos paravás e,  sustentando o crucifixo na mão direita,  apavorou todo o seu exército e fez  recuar a linha de frente dos guerreiros montados em elefantes e esmagando parte  da infantaria que vinha atrás.

Colaboração: Ubirajara de Carvalho (Membro do Apostolado da Oração)

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