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BROCOS E A REDENÇÃO DE CAM

Modesto Brocos, espanhol originário de Santiago de Compostela nasceu em 1852 com as mesmas aptidões de seu irmão Izidoro e graduou-se na Academia de Belas Artes de Corunha, Espanha. Inquieto, ao completar 18 anos, decidiu viajar até a América do Sul e permaneceu 2 anos na Argentina. Logo após chega ao Rio de Janeiro onde recebeu aulas de pintura durante 2 anos com Vitor Meireles e Zeferino da Costa. Viajou a seguir para Paris e ingressou na Escola de Belas Artes. Transferiu-se para Madri e depois Roma onde encontrou seu professor Francisco Padilla com quem permaneceu estudando e pintando durante 5 anos. Já considerado um pintor maduro com exposições realizadas na Europa, recebeu um convite de Rodolfo Bernadelli, diretor Academia Nacional de Belas Artes para voltar ao Brasil onde naturalizou-se, sendo nomeado professor da Instituição dando aulas e pintando até 1896. Autor de várias obras importantes, dentre elas o quadro Redenção de Cam, retratando uma senhora negra agradecendo aos céus, ao lado da filha mulata com o neto branco no colo e um jovem  branco, seu genro. O quadro de grandes dimensões, cerca de 2 metros de altura,  representa a formação da sociedade brasileira e, segundo João Baptista de Lacerda, retrata a discriminação:

      Negro passando a branco na terceira geração por efeito do cruzamento de raças.

Cam era um dos três filhos de Noé, agricultor que tinha uma vinha. Um certo dia ele embriagou-se e apareceu nu em sua tenda. Cam viu e contou aos seus irmãos Sem e Jafet (Gn 9.22). Eles tomaram uma capa e foram cobrir a nudez de seu pai andando de costas. Quando acordou Noé soube do ocorrido e o que tinha feito seu filho caçula, Noé ofendido proclamou:

Maldito seja Canaã filho de Cam, que ele seja o último dos escravos de seus irmãos. Que Deus dilate a Jafet e este habite nas tendas de Sem e Canaã seja seu escravo.

Para os que tem fé, servo do Senhor é um orgulho pacifico mas servo dos servos emana escravidão, herança maldita dos colonizadores que souberam trazê-los para as colônias e nunca para a metrópole.

Noé não podia amaldiçoar Cam porque ele tinha sido abençoado por Deus; assim ele amaldiçoou Canaã seu filho. O título escolhido pelo autor é fundamentado no livro do Gênesis cuja maldição racista feita pelo pai Noé, segundo teoria da época, continha a cor negra da escravidão por ter olhado o pai nu e bêbado e, portanto, ser amaldiçoado como “servo dos servos”

Ao completar a obra, Brocos não viu a maldição e sim a redenção de Cam,  pois expressa um modelo de miscigenação entre raças, característica da população brasileira e assunto muito debatido no fim do Império e na Primeira República. Abandonados à sorte, libertados e sem teto, foram jogados nas estradas para servir de “servo e prestar vassalagem aos brancos”. Mas muitos tiveram sorte e apoio e souberam se superar. Hoje os afrodescendentes representam mais da metade da população brasileira e já nos deram grandes figuras em todas as atividades, destacando-se Machado de Assis,  Cruz e Souza, Luiz Gama, Abdias Nascimento, Milton Santos, Maria Firmina dos Reis,  Sueli Carneiro, Tia Ciata,  André Rebouças, Joaquim Barbosa e muitos outros. Mas não posso deixar de mencionar um jovem negro de 26 anos que fundou o Instituto Four e patrocinado pela Fundação Educar de Jorge Paulo Lemann foi o primeiro negro a entrar no MBA do Instituto de Tecnologia da Massachusetts que, por certo, servirá de incentivo para outros jovens de origem humilde. Bendita seja a nossa miscigenação, exemplo para o mundo.

Modesto Brocos, grande pintor brasileiro por opção, faleceu em novembro de 1936 aos 84 anos no Rio de Janeiro.

Colaboração: Ubirajara de Carvalho (Membro do Apostolado da Oração)

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