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As desventuras de Mem de Sá no caminho para o Brasil

Sem o comando forte da corte, D. Catarina com o apoio de D. João III decidiu nomear o terceiro governador geral do Brasil.  Era o dia 23 de julho de 1556 e o escolhido foi o magistrado Mem de Sá membro permanente do Conselho do Rei.  Ele tinha 50 anos, idade avançada para a época, viúvo e pai de cinco filhos. Foi uma decisão emergencial ser obrigado a viajar sem escolta, uma temeridade e que foi o prenúncio de tempos difíceis a serem superados.  A preparação da nau demorou meses pois era a única disponível; o barco saiu do porto de Lisboa no final de abril de 1557.  Segundo relato do próprio Mem de Sá, velejaram direto para as ilhas de Cabo Verde onde boa parte da tripulação adoeceu, morrendo 42 pessoas dos 336 a bordo. Abastecidos com víveres e água a nau continuou enfrentando correntes adversas e calmarias. Viagem dura e longa com muitos dias parados no meio do oceano; comida racionada e o silêncio aterrador da calmaria favorecendo o apodrecimento da água potável devido ao forte calor. Cinco longas calmarias totalizando três meses parados. Superaram tudo com fé e esperança mas houve motins a bordo contornados habilmente por Mem e Sá.   Foram oito meses no mar e aportou na colônia em Salvador dia 28 de dezembro de 1557 quando mudanças profundas haviam ocorridas no reino.

Vejamos:

Quarenta dias após a partida de Mem de Sá, morreu o rei D. João III.  O motivo foi o desgosto que teve no casamento de seu filho D. João, 15 anos de idade, único sobrevivente dentre os nove que tivera com D. Catarina. Durante a cerimônia um calvinista inglês levantou-se e arrancou a hóstia consagrada das mãos do sacerdote, arremessando ao chão, quebrando em muitos pedaços e jogando o cálice no piso frio, derramando o vinho ainda não consagrado.  Este ato impensado abalou profundamente o rei que pressentiu um sinal dos céus para outras tragédias futuras. A partir de então passou envergar luto fechado e dedicar-se à oração. A governança foi transferida às mãos de D. Catarina que junto com o secretário particular do rei (Pero de Alcáçova Carneiro) assinavam os documentos e lia para o rei. Para piorar o estado emocional do soberano, o jovem filho do rei casado com a princesa D. Joana morreu antes de completar 17 anos deixando viúva a princesa com 15 anos grávida.

D. João III responsável pela distribuição dos jesuítas na Ásia e Américas e, indiretamente, pela evangelização do Oriente teve aplausos e apupos. Os que o aplaudiam citavam o rei que civilizou o Brasil com a adoção das capitanias hereditárias e o Governo Geral em 1548. Os que o reprovavam mencionavam a corrupção e o descalabro financeiro na Ásia que São Francisco Xavier[1] relatou tantas vezes ao soberano. Ele, o gigante português nascido no reino de Navarra, tão jovem e tão sábio, tão forte e tão santo, tão grande e tão humilde segundo Barbosa Lima.

Ao aportar em Salvador, Mem de Sá após a longa viagem, dirigiu-se ao Colégio dos Jesuítas para agradecer a Deus e lá permaneceu recluso por cinco dias, dedicando-se aos exercícios espirituais de Inácio de Loyola. Jejuou e meditou sobre as pesadas tarefas que o aguardava e se disciplinou com a ajuda de Manuel de Nóbrega e só depois se sentiu pronto para governar. Sua governança com administração rígida e moralista, proibiu o jogo, embriaguez e vadiagem entre os colonos e a antropofagia entre os índios. Dedicado e exigente exerceu com vigor sua administração e deu tudo de si na sua gestão; iria perder seu filho Fernão de Sá na batalha de Cricapé no Espírito Santo e seu sobrinho Salvador de Sá na conquista do Rio de Janeiro. O fato marcante de sua administração foi a pacificação dos Tamoios concluída com o armistício de Iperoig.  Após 14 anos de bons serviços solicitou retorno para Lisboa.  Foi atendido mas não concretizado pois a nau de Luiz de Vasconcelos, o novo governador nomeado, naufragou a caminho da Bahia. Mem de Sá faleceu na Bahia em 12 de março de 1572 e seu corpo enterrado no cruzeiro da igreja dos jesuítas em Salvador.

O gesto de humildade e respeito a Deus ao chegar em Salvador e internar-se no Colégio dos Jesuítas angariou a admiração de Anchieta que a ele dedicou um poema:

Eis que, liberta dos perigos do mar e de há muito esperada, uma nau fundeia na Bahia de Todos os Santos legaram o nome. Traziam salvo das faces do oceano, um singelo herói, de extraordinária coragem, Mem que de sangue de nobres antepassados e de seiva ilustre de longa ascendência, herdara o sobrenome de Sá. Superiores aos anos, ornam-lhe o rosto de barbas brancas majestosas: alegres a feições, sombreadas de senil gravidade, vivos os olhos, másculo o arcabouço do corpo, frescas ainda, como de moço as forças do adulto. Muito mais excelente e a alma pois lho poliram. Vasta ciência, com a experiência longa do mundo, e a arte da palavra bela”.

É impressionante como os tempos modernos vai afastando o homem de Deus, a ponto de olharmos Mem de Sá, como um homem cuja humildade e respeito ao Criador era uma obrigação, ser hoje considerado como uma virtude.

Colaboração: Ubirajara de Carvalho (Membro do Apostolado da Oração)

[1] Ir. Epifanio Barbosa Lima, Marcos SJ. São Francisco Xavier. Uma vida entregue à missão. Edições Loyola, São Paulo. 2020.

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