Rua: São Francisco Xavier, 75 - Tijuca - Rio de Janeiro, RJ
21 2234-2094 ou 21 2234-2095 / paroquiasfxavier@yahoo.com.br

A primazia da circunavegação e a evangelização na Ásia

O Governo Português preparou a programação do V Centenário da Viagem de Circunavegação conforme a palestra dada no Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) em Algés, Oeiras. Este grande acontecimento estava sendo disputado por Espanha e Portugal, na declaração da primazia do evento. Entretanto, face a sua relevância mundial, com o comando de um navegador português utilizando tecnologia e cartografia lusa e da Espanha responsável pela armação da frota, ambos merecem a glória da primazia. Felizmente, decidiram apresentar a candidatura conjunta ao órgão Unesco da ONU.

Fazem mais de quinhentos anos que o navegador português Fernão de Magalhães realizou o seu desejo de buscar especiarias e difundir o Cristianismo no Oriente, evitando a navegação costeira ao longo da costa africana até então utilizada. A expansão marítima não estava apenas ligada aos interesses mercantis, mas também à difusão do Cristianismo.

Navegar em direção ao Oeste era imperativo, pois ele desejava provar, definitivamente, a esfericidade da Terra e contestar a planicidade defendida por alguns na Europa. O medo de enfrentar o oceano aberto em lugar da navegação ao longo da costa da África perdurava entre os navegadores. Ainda permanecia a lenda de monstros marinhos nas mentes atrasadas e navegar no oceano aberto e desconhecido equivalia viajar no espaço e muitos navegadores corajosos se atiraram ao mar a bordo de embarcações em busca de fama, dinheiro e reconhecimento. Poucos conseguiram e, mesmo assim, caíram no ostracismo face às perdas humanas e  materiais (lembremos de Pedro Alves Cabral,  Diogo Cão, Nuno Tristão e o próprio Fernão de Magalhães), sem falar de Cristóvão Colombo que chegou em Lisboa e informou ao rei, equivocadamente,  ter chegado na Índia quando estivera apenas nas Antilhas, quase provocando uma guerra entre Portugal e Espanha. A expedição Fernão de Magalhães consistia em uma caravela e quatro naus armadas na Espanha e comandada por um corajoso navegador.

A caravela era importante por ser mais estreita e funda, garantindo maior estabilidade no mar aberto comparada às demais. Desenvolvida por Portugal, copiada pelos vizinhos, que foram bons navegantes, mas não tinham a tecnologia lusa.  Portugal contava também com a inteligência de um astrônomo Abrahan Zacuto estudioso das correntes marinhas. A aceitação da presença judaica muito ajudou no desenvolvimento do astrolábio.  Eles souberam também aproveitar os conhecimentos árabes na técnica de confecção de mapas que facilitou o desenvolvimento da navegação.

Naquela época, a navegação dispunha de poucos recursos, limitados a portulanos e cartas de marear  (atualizadas seguidamente com as terras achadas) preparados pelos portugueses e cujas cópias eram negociados escondidos do rei de Portugal; o quadrante permitia medir a altura meridiana do sol para chegar à latitude mas não se conhecia a longitude que só foi possível dois séculos a frente; a confirmação da rota era dada pela posição das estrelas o que significava dizer que somente durante a noite estrelada poderia ser confirmada.

Fernão de Magalhães teve de se humilhar e trabalhar duro para conseguir os recursos necessários, pois D. Manuel I de Portugal não aceitou o risco já que dispunha de rota conhecida e explorada, contornando a África em direção ao leste. Ele teve de apelar para Carlos V da Espanha que aceitou patrocinar a missão. Dois anos depois a frota estava pronta e 240 voluntários, incluso 40 tripulantes portugueses, aptos para a aventura. Estava convicto que atingiria a Ásia navegando para o oeste; pois dispunha de mapas clandestinos roubados de Portugal e no mercado de Sant-Dié. Ele foi o primeiro a declarar a inexistência da costa da Índia na América.

A frota saiu do porto de Sanlucar de Barrameda na região de Andaluzia no sul da Espanha na manhã de 20 de setembro de 1519 e aportaram nas Canárias seis dias depois; navegaram em oceano aberto direto para a Baía de Guanabara onde chegaram em 12 de dezembro de 1519. Conseguiram negociar com os índios o que consideraram um bom negócio: uma faca e um anzol por seis galinhas; um pente por dois gansos, um espelho por dois patos e figuras de cartas de jogar por lenha e água. Barcos abastecidos, partiram para o extremo sul. Nesta altura, já avistando o Rio da Prata, enfrentaram um motim a bordo da San Antonio quando a tripulação convicta que não teria bom êxito, aprisionou o capitão Álvaro de Mesquita e entregou ao piloto Estevão Gomes a condução da nau de volta à Espanha. O barco regressou à Espanha com protestos de Magalhães que nada pode fazer, temendo pela vida de Álvaro de Mesquita. A frota remanescente aportou no Rio da Prata em 2 de janeiro de 1520 e reforçaram o carregamento de água e mais lenha para suportar o frio intenso do sul. A partir de então sofreram barbaramente com as condições adversas do mar e nevoeiro permanente e tiveram de aguardar.

Fizeram mais uma parada em Porto de San Julián em 31 de março para invernar. Logo depois, deram pela falta da Santiago que fazia o reconhecimento do litoral. Presume-se que tenha batido em um banco de pedras, mas, felizmente, os tripulantes foram resgatados. Decidiram aguardar o fim do inverno. Metade da tripulação já estava liquidada pelo escorbuto quando ocorreu um sério motim a bordo do Vitoria com a eliminação violenta e anticristã do vedor João de Cabrera, do tesoureiro Luís Mendonça e do contador Antônio Coca que foram mortos pelo comando; Gaspar de Quesada e Sebastião Elcano escaparam, mas foram castigados durante a viagem. No entanto, como Gaspar se insubordinou novamente, foi expulso da expedição junto com o sacerdote de bordo e deixados em terra. Contornar a América do Sul deve ter sido muito difícil, mas conseguiram. Ao chegar a uma passagem que poderia levar ao outro lado do oceano, depararam com rochas íngremes, penhas altíssimas e labaredas de fogueira dos indígenas no alto dos penhascos. Navegaram pelo canal que batizaram de Estreito dos Patagões relembrando a estatura dos gaúchos nativos do local que impressionou a tripulação pelo tamanho dos pés; naturalmente, sem saber que no futuro receberia o nome de Estreito de Magalhães. Levaram 27 dias para atravessá-lo e encontraram, do outro lado, um mar calmo que chamaram de Pacífico.

Atingiram o Oceano Pacífico e o drama maior seria enfrentado agora sem mapas de referência e de correntes marinhas desconhecidas pelos navegantes ocidentais. Foram quase cinco meses sem avistar terra firme comendo bolacha podre e água racionada e, antes de atingir a Ilha de Guam, chegaram a comer o couro dos cintos e apetrechos de couro de bordo. O ambiente se tornou muito difícil em todos os barcos. As traições tinham muito a haver com a disputa com Portugal, afinal o comandante era português e os demais barcos eram comandados por espanhóis. Portugal e Espanha desenvolveram uma sabedoria estratégica no convívio das descobertas marítimas, agredindo-se fraternalmente, mas repudiavam toda e qualquer outra nação que tentasse se aproximar da disputa luso-espanhola.

Estar no Mar da China não foi uma novidade para ele pois lá esteve duas vezes em 1497/1508, e 1511 na armada de Antônio de Abreu, contornando o Cabo da Boa Esperança.  Ao chegar à Ásia, Magalhães decidiu transferir Elcano para o comando do Concepción face a sua larga experiência.  Antes de atingir a Molucas enfrentou o mais violento dos motins a bordo e deu o exemplo, repetindo o gesto nada cristão de San Julián, esquartejando o seu líder para amedrontar os demais tripulantes. A guarnição já bem restrita não permitia o manejo dos barcos. Tripulação insuficiente para mantê-los impediu que a nau Concepción fosse salva, tendo-se queimada por inteiro a partir do fogo gerado no fogão do porão do navio.

Entretanto, há dúvidas sobre este acidente e comenta-se que foi incendiada de propósito por estar carregada de especiarias e não ter tripulantes suficientes para conduzi-la.  Magalhães conhecia alguns dos meandros e difíceis caminhos marinhos traiçoeiros entre as ilhas e o mar instável, pois lá esteve anteriormente. Entretanto, seu gênio difícil e a sua inaptidão em evangelizar com doçura e paciência, irritou seu desafeto em aceitar a religião que Magalhães queria impor pela força. No entanto, a semente do evangelho foi plantada e ao chegar na atual Filipinas iniciaram a evangelização dos nativos das tribos Cebuanos que foi a semente da missão.  Realizaram as trocas comerciais que abarrotaram os navios e quase não tinham como acomodar a tripulação.  O duo comercio e religião não deu certo, portanto, o sucesso comercial não se estendeu à evangelização; Fernão de Magalhães se envolveu numa refrega contra uma tribo que não aprovava a aceitação do batismo pelos Cebuanos e, contra os desejos da tripulação entrou na batalha contra os nativos adversários. Eram 2.000 guerreiros nativos contra 49 tripulantes em armas. Magalhães foi morto nas cercanias de Mactan em abril de 1521. Ironias do destino, a falta de humanidade no trato com a tripulação teve muito haver com a ausência de cristianização da expedição, pois esquartejaram dois e esfaquearam um em lugar de prendê-los ou abandoná-los em terra firme. A ausência de sacerdotes nos barcos foi outro erro notável, pois o único a bordo do Vitoria foi expulso junto com Gaspar na América do Sul. A nave Vitoria era a única que ao mar desfraldava a cruz de malta na vela de frente.

Após a morte de Fernão de Magalhães o comando dos navios foi assumido por João Lopes Carvalho e após dois meses de trocas comerciais, prontos para navegar, descobriram um rombo no casco do Trinidad conduzido pelo Gonzalo Gomes de Espinosa; ele docou para um longo reparo.  Vitoria, agora conduzido por Juan Sebastian   Elcano decidiu retornar pelo Oceano Índico, contornando de volta o Cabo da Boa Esperança. Aportaram em Cabo Verde e parte da tripulação foi detida, após reabastecerem a nau pela terceira vez, enganando os nativos terem vindo da África do Sul. Ao desconfiar da mentira carregaram a chalupa com soldados armados para irem até o barco. Elcano sentiu o problema, içou velas e fugiu deixando os tripulantes da chalupa e os soldados no mar.

Chegaram a Sevilha em 6 de setembro de 1522 com 17 tripulantes maltrapilhos e descalços, exatamente 3 anos após a partida. No porão abarrotado traziam uma fortuna que pagou uma parte da expedição. Enquanto isso, o Trinidad não foi muito longe pois recuperado fez-se ao mar em 6 de abril de 1522 mas foi contido adiante pela forte tempestade. Buscaram socorro junto ao capitão português Antônio de Brito que levou a nau até o porto de Benaconora prendendo o barco e a tripulação. Foram todos enviados para trabalhos forçados nas Molucas e depois transferidos para Banda, Java, Malaca e, finalmente, para a prisão em Cochim quando escreveu uma carta que chegou às mãos do rei Carlos I da Espanha. Gonzalo Gomes de Espinosa foi libertado em 1527 pela interferência da esposa espanhola do rei português D. João III.

Quanto à geografia, houve a confirmação dos cálculos dos árabes que no século IX já prediziam a esfericidade da Terra com valores muito próximos da métrica atual. Os detalhes da expedição ficaram registrados graças a iniciativa do italiano Antônio Pigaretta que pagou sua passagem e descreveu o dia a dia da missão a bordo da Vitoria. Elcano voltou a navegar a pedido de Carlos I para reclamar as Molucas, para a Espanha. Foi capitaneando uma frota de 7 navios junto com Garcia Jofre de Loiasa mas morreu de escorbuto no Oceano Pacífico.

Contextualizando:

A evangelização na Ásia só teve início vinte anos depois de concluída a circunavegação, pois até então as ordens medicantes a partir do século XIII espalhadas pela Ásia, pouco fizeram em termos de evangelização. A missão verdadeira ocorreu através da ação do rei D. João III convicto da necessidade de catequizar com tolerância os povos conquistados e unificá-los religiosamente o que exigiria uma unidade de fé muito forte. Para tanto seria necessário um grupo de missionários com grande capacidade de inculturação para ganhar a confiança do povo; não havia espaço para misturar comércio e religião. Em 1542, lá chegou o jesuíta Francisco Xavier e seus seguidores determinados a propagar a fé por todas as regiões da Ásia conquistadas ou a conquistar para Cristo. Como resultado, um milhão e duzentas mil pessoas se converteram em um período de dez anos.

Francisco Xavier ensinava na própria língua nativa de cada um, portanto, possuindo o dom da xenoglosia, se expressava no idioma próprio dos nativos, espantando a todos. Escrevia em 8 idiomas, inclusive o tâmil, malaio e japonês e deixou devotos por toda a região por onde passou.

Colaboração: Ubirajara de Carvalho (Membro do Apostolado da Oração)

Print This Post