Rua: São Francisco Xavier, 75 - Tijuca - Rio de Janeiro, RJ
21 2234-2094 ou 21 2234-2095 / paroquiasfxavier@yahoo.com.br

Um Jesuíta acima de seu tempo

O jesuíta Antônio Vieira nasceu predestinado, homem acima de seu tempo, foi sacerdote, diplomata, escritor, orador e negociador, teve seus dias de glória quando diplomata, convivia com os nobres e intelectuais europeus, porém soube desfrutar da vida com humildade e exercer atividades simples como arrumar a cama de um índio doente ou servir comida para ele. Lutou contra a escravidão dos índios na época em que era normal ter escravos pela falta de mão de obra de colonos.

Quanto aos índios, procurava evangelizá-los e acabou entrando em conflito com os dominicanos que atuavam na Inquisição pois os jesuítas pregavam a fé através da catequese, enquanto os dominicanos defendiam a fé através dos tribunais da Inquisição. Padre Vieira acabou sendo conhecido como Pajaçú ou Grande Pai pelos selvícolas.

O jesuíta não economizou em suas convicções. Perseverante tal como São Francisco Xavier, agia firme em suas posições, convicto de terem emanado de Deus; praticante dos exercícios espirituais de Inácio de Loyola. Procurou defender os judeus e cristãos novos e eliminar a distinção entre eles e os cristãos velhos tradicionais; chegou a propor a anistia aos judeus e o retorno deles para Portugal, uma vez que eram comerciantes e seria de grande valia para o reino. Serviu na marinha portuguesa. Acabou perseguido por defender a importância estratégica dos cristãos novos forçados a se converter na fé católica. Defendeu publicamente a liberdade religiosa no tempo em que a Inquisição mandava para a forca, queimava vivo ou torturava os dissidentes acusados de heresia.

Antônio Vieira veio para o Brasil em 1614. Foi nomeado escrivão no Tribunal da Relação da Bahia. Descobriu a vocação para o sacerdócio e ingressou no Colégio dos Jesuítas, ainda jovem em Salvador e se tornou um aluno brilhante. Nesta época ocorreu algo estranho, um estalo em sua cabeça aconteceu e a partir de então passou a guardar na memória tudo o que lia. O regime na escola era pesado, exigindo de oito a doze horas de estudo. Acordava às quatro horas da manhã e recolhia-se no final da tarde. Estudou latim, artes, retórica, filosofia, metafísica e ética. Destacou-se nos estudos e em 1626, ainda noviço, foi escolhido para redigir em latim as atividades dos Jesuítas em carta anual (carta ânsia) remetida para seus superiores em Lisboa.

Quando ocorreu a primeira invasão holandesa em Salvador, por volta de 1624, Antônio Vieira refugiou-se no interior da capitania. Retornou para Salvador visando concluir os estudos de filosofia e tornar-se mestre em artes. A partir de então já era conhecido como notável pregador e foi nomeado professor de teologia no Colégio Jesuíta de Salvador.

Na segunda invasão dos holandeses no Nordeste, Antônio Vieira defendeu a Holanda, sugerindo a Portugal a entrega da região pois a coroa gastava dez vezes mais com a sua manutenção e defesa. Além do mais os Países Baixos eram, militarmente, superiores a Portugal que não tinha recursos para vencê-los. Essa posição virou um escândalo e o jesuíta se enfraqueceu com a derrota de sua posição junto à Corte. Simultaneamente, eclodiu nova refrega entre os Dominicanos (defendendo a Inquisição) e os Jesuítas (catequistas).

Em 1640 D. João IV assume o trono de Portugal, restaurando a monarquia depois de sessenta anos de domínio espanhol. O jesuíta Vieira integra a missão que vai a Lisboa prestar obediência ao novo monarca. Prega na Capela Real o Sermão dos Bons Anos de forte repercussão, associando o sebastianismo a D. João IV e à restauração. Conquistou a amizade do rei e graças à suas pregações, tornou-se Guardião da Coroa e confidente do rei depois que Portugal readquiriu sua independência. No dilema entre Bragança e Habsburgo convenceu a nobreza que a vontade de Deus pairava sobre os Bragança. É nomeado embaixador do rei para negociar a paz com a Holanda.  Viaja para a França e a seguir para a Holanda que recusa todas as propostas apresentadas por Vieira até serem derrotados em 1654, enfraquecendo suas tratativas.

Como confidente do rei, sugeriu negociar com a Espanha o casamento do herdeiro Teodósio com Maria Tereza, filha do rei espanhol e a transferência do rei de Portugal para São Luís onde se tornaria rei de um Brasil independente ou, como alternativa, o casamento com a filha do rei, permitindo o casal reinar por toda a península ibérica com a capital em Lisboa.

Ágil e inteligente, Vieira planeja a criação de duas companhias. mercantis, uma Ocidental e outra Oriental utilizando capital de judeus e cristãos novos para gerenciar as compras, estoque e transporte de açúcar e pau-brasil para a Europa.  Começa a ter sucesso na empreitada mas não contava com os sistemáticos ataques dos holandeses em alto mar, saqueando boa parte dos navios lusos. Superaram esta dificuldade, mas a saúde do rei começou a enfraquecer e Vieira impetuoso decidiu retornar ao Maranhão para libertar os índios cativos e acabou sendo expulso em 1661 pelos senhores de engenho contrários à libertação dos indígenas.

Retorna para Portugal em 1661 no intuito de defender os indígenas junto à Corte contra a cobiça dos colonos portugueses e, após dois meses navegando, enfrenta uma furiosa tempestade que inutiliza as velas, deixando o barco adernado. A nau é abordada por um corsário holandês, próximo dos Açores; roubam todos os bens, entre eles, as cartas e sermões do jesuíta. Recolhem Vieira e os tripulantes e os deixam em ilha próxima.  Após uma aventura de ilha em ilha, conseguem chegar em Lisboa em novembro. A perda dos documentos tão sentida foi resgatada depois na Holanda.

Em Portugal abraça a profecia Sebastiana entrando em conflito com a Inquisição acusado de herege. Foi transferido para o Colégio dos Jesuítas em Coimbra e lá permaneceu recluso por treze meses. A sua condenação foi fundamentada por seus escritos Quinto Império, História do Futuro e Chave do Futuro.

Vieira mudou-se para Roma em agosto de 1669 e lá permaneceu durante 6 anos. O propósito era defender a canonização dos quarenta mártires jesuítas trucidados por protestantes calvinistas nas ilhas Canarias em 1570, combater a Inquisição e tentar anular suas penas. Consegue um feito extraordinário, ou seja, paralisar as atividades do Santo Ofício em Portugal por sete anos e escapar das acusações de seus inquisidores.

Alegando questão de saúde e quase cego, retorna para a Bahia; declina do convite para ser confessor da rainha Cristina da Suécia. Em 1681 passa a residir na casa de campo do Colégio dos Jesuítas em Salvador. Cinco anos depois é acometido pelo mal da bicha (febre amarela). A epidemia se alastrou por Salvador, matando muita gente, e a Câmara de Salvador fez votos a São Francisco Xavier e, por ser atendido na cura coletiva, foi proclamado Padroeiro da Cidade de Salvador em 10 de maio de 1686.

Seus sermões em favor da libertação dos índios causavam exaltação em Portugal e na colônia, pois defendia a nobre missão de converter os nativos para a fé católica. Coerente com suas pregações escreve o Regulamento das Aldeias estabelecendo as regras aos jesuítas que acabaram sendo adotadas por outras congregações.  Era a política de evangelização de São Francisco Xavier adotada 130 anos após sua morte.

Em 1688, o jesuíta Antônio Vieira é nomeado Visitador Geral da Província do Brasil. No período 1690-1695 promove a missão entre os índios Cariri da Bahia e prega contra a escravidão dos índios.  Ele estava com quase 90 anos, muito cansado e abatido e já não tinha mais forças. Em seu curriculum consta ter navegado muitas vezes, cercado por piratas quatro vezes em alto mar, disputado muitas batalhas políticas e religiosas do Maranhão a Roma, conviveu com tribos do Amazonas e com nobres em castelos na Áustria. Não consegue mais escrever e totalmente cego é recolhido na Quinta do Tanque para o Colégio dos Jesuítas. Declara ter sido esquecido pelo rei D. João IV, seus nobres e amigos. Com aqueles que o assistem em seus últimos momentos, pediu perdão pelos seus erros e repetiu as palavras mencionadas por São Francisco Xavier em sua agonia.  Declara àqueles que o assistiam que seria esquecido após a morte; mas foi um ledo engano, pois entrou para a História.

Colaboração: Ubirajara de Carvalho (Membro do Apostolado da Oração)

Print This Post