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Destaques › 19/01/2014

São Sebastião dos Capuchinhos

rj_sao_sebastiaoCorria o ano de 1550 quando na cidade de Rouen, mercadores franceses interessados na extração do pau Brasil, promoveram uma festança em homenagem a Henrique II. Espertos, os financistas armadores prepararam uma simulação de guerra nativa com os índios já trazidos anteriormente e o show tinha aves exóticas do Brasil. Foi um sucesso junto à corte.

Era uma época de grande demanda para tintas obtidas de processos alquímicos complicados e de difícil fixação no tecido. As cortes europeias vestiam-se em grande estilo e já tinham conhecimento do pau Brasil e sua importante utilidade no tingimento de tecidos. Os navegadores franceses nutriam grande simpatia pelos índios da América, apreciavam as índias charmosas e seus hábitos exóticos. Aliás, o próprio capitão Binot de Gonneville que aportou no Brasil em 1503, levou um índio da tribo carijó para a França e terminou casando com sua filha.

Algumas décadas se passaram e os franceses continuavam a visitar o litoral sudeste e escambar bugigangas por pau Brasil. Tudo armado para uma nova expedição apesar da oposição do rei. Entretanto, impressionado com a apresentação do simulacro de guerra nativa, o rei voltou atrás e apoiou o envio de uma expedição cartográfica para mapear o litoral. Em 1554, Nicolau Durand Villegagnon[1] levantou recursos e partiu para Cabo Frio. Era uma viagem exploratória curta e, discretamente, trouxe pau Brasil suficiente para cobrir os custos da expedição. Retornou convicto que poderia fundar uma colônia no Brasil, tal a receptividade do líder indígena Cunhambebe. Era sua intenção fundar uma base militar e naval para controlar o comércio com as Índias. No retorno à Europa, Durand conseguiu ser recebido pelo rei e fez uma exposição de quatro horas  relatando os resultados e  o seu projeto.

Durand conseguiu entusiasmar a nobreza e alguns contribuíram. Arrecadou-se uma boa quantia, inclusive com uma pequena colaboração do rei. Ficou entendido que seria uma aventura particular sem o apoio oficial do reino.  A tripulação dos três barcos beirava cerca de 400 pessoas e para manter o sigilo da viagem Durand espalhou  o boato que os três navios  (2 naus e 1 naveta com mantimentos)  estavam partindo para  Guiné. Saíram do porto de Le Havre  na manhã de 14 de agosto de 1555 e aportaram em Dieppe para acordar detalhes com seus financistas armadores e completar reparos dos navios.  Os três barcos eram conduzidos por uma tripulação independente, entre eles, Nicolas Barré um ex-piloto competente. Transportavam meia centena de soldados escoceses, além de prisioneiros voluntários que se ofereceram em troca da liberdade, caso sobrevivessem ao  trabalho nos trópicos.  Precavido, Durand trouxe consigo um índio casado com  uma francesa para servir de intérprete e dois frades beneditinos com conhecimentos de botânica que, inclusive, criaram a primeira escola católica da Guanabara. O índio não conseguiu ser útil porque era de outra tribo e não falava a língua dos tamoios e tupinambás e, para horror dos franceses, acabou servindo de jantar para os nativos tamoios.

Assentados após árduo trabalho de três meses, construíram uma fortaleza na ilha Seregipe (onde foi construído depois o forte  São Francisco Xavier e hoje se situa a Escola Naval) com cinco baterias voltadas para o mar e  levantaram uma paliçada na praia (atual Praia do Flamengo). Ainda com o apoio indígena estenderam sua atuação até a atual Ilha do Governador. Entretanto, seu braço direito, o padre franciscano André Thevet[2] adoeceu. Ele era o sacerdote que Durand contava para todas as missões importantes: padre, consultor e confidente, líder espiritual inconteste, sua enfermidade foi, aos poucos, minando o entusiasmo de Durand.

Convencido de que necessitava de reforços, e desejando retornar Thevet doente para casa, Durand  enviou seu sobrinho Bois-le-Comte no comando de um dos barcos.   Ele partiu de volta a França em 12 de fevereiro de 1556 tendo, como objetivo, arregimentar 3000 soldados voluntários e o máximo de mulheres brancas disponíveis e que tivessem intenção de casar. O tempo passando e nenhuma noticia do sobrinho que, em vão, não conseguia os reforços necessários.  Enquanto isso, fugindo das condições duras impostas por Durand,  uma parte dos antigos prisioneiros foram escapando  se amancebando com as índias e fugindo para o mato, obrigando Durand a exigir casamento registrado pelo tabelião da expedição.  Insatisfeito, com a perda da liberdade e à luxúria que usufruíam com as índias, um deles tramou envenenar o comandante. A operação transpirou, resultando em dois enforcados e trinta condenados.

Na França, Bois le Comte foi bem recebido  por Henrique II mas o rei deixou claro que não haveria recursos já que a França estava em guerra. Apelos vários em todas as direções e Bois le Comte[3] consegue finalmente os recursos necessários e convence Felipe Du Pont. Ele embarca no Grand Roberge atracado em Honfleur. A expedição de reforço era composta de três navios: Grand Roberge, Roberge e Petite Rossé, trazendo um total de 300 tripulantes, cinco moças para casar e seis crianças que seriam deixadas com os índios para apreender o idioma. Condições bem distintas da pretensão inicial  de 3.000 soldados. A viagem foi complicada porque se comportaram, por necessidade, como piratas. Saquearam barcos espanhóis e portugueses para se auto abastecer de água e lenha, já que ao se aproximarem das ilhas Canárias para tomar água, foram expulsos a tiros pela guarnição de Tenerife. Ao afastar das Canárias, saquearam e tomaram uma caravela espanhola, aprisionando os tripulantes em uma nau portuguesa; resultado aumentou a frota para quatro barcos. Chegaram à Guanabara em 7 de março de 1557 com todos os embarcados exauridos.

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Desde muito relegados pelas descobertas marítimas de Espanha e Portugal os franceses envolveram-se numa cisão interna entre católicos e protestantes e passaram a sonhar com a conquista das terras na costa leste da América. Antes disso, várias foram as incursões de holandeses, franceses, ingleses e italianos, mas foram os protestantes franceses e holandeses. (calvinistas especialmente) que mais fustigaram e tentaram se estabelecer no litoral do Nordeste e Sudeste da colônia. Na verdade, os movimentos de conquista dos franceses embora fossem projetos particulares, tiveram o apoio não oficial dos reis da França que não desejavam abrir disputas com Roma. Entretanto, as divisões internas e lutas políticas e religiosas provocaram o fracasso do empreendimento na colônia. Portanto, França e Holanda foram vítimas de si próprio.

Na França a vida foi se complicando com a disputa religiosa aberta entre seus membros.  A intolerância não permitia mais a convivência pacífica. Houve reflexos na França Antártica, pois católicos e calvinistas passaram a fazer refeições em separado afetando os trabalhos no enclave francês. Tentando fugir do ambiente pesado do forte, um grupo de calvinistas tomou o barco Jacques ancorado na baía para retornar à França. O estado precário da nau obrigou o seu retornou; a embarcação estava fazendo água e todos tiveram de trabalhar duro na bomba manual para sobreviver. Resultado, três dos incitadores foram executados por Nicolas Villegagnon.

Desiludido com as baixas Durand partiu para a França em maio de 1559, deixando Bois le Comte com os escoceses e franceses que restaram e  seus aliados tamoios e tupinambás. Em dezembro de 1559 o Governador Geral tomou conhecimento que o rei da França desejava desalojar os franceses.

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Já sabemos que foi difícil para Mem de Sá combater os franceses e seus aliados tupis, pois faltavam tropas. O tempo parecia concorrer para o fracasso da reconquista em face de valentia dos índios leais aos franceses.    Ademais, a reputação de Mem de Sá não ia bem ao reino, aumentando a preocupação do jesuíta Manuel da Nóbrega.  Entretanto, uma boa notícia apareceu. Um devedor do tribunal do Santo Oficio, desejando se retratar, conseguiu um encontro com o Governador-Geral e expôs:  o rei da França deseja a retirada dos franceses do Rio de Janeiro.

Na diplomacia, era de conhecimento de Lisboa que Henrique II havia renegado Villegagnon. Antes do rei sofrer o acidente que o matou  já havia comentários na corte que ele não desejava abrir mais atrito com Roma.  Para Lisboa, era o momento oportuno de agir, mas faltavam recursos.  Como a pequena vila continuava sitiada pelos índios, Mem de Sá partiu para Salvador em busca de reforços e lá encontrou a armada do almirante Bartolomeu de Vasconcellos fundeada na baía de Todos os Santos desde novembro e trazendo bordo o jovem Estácio de Sá, sobrinho do Governador Geral. Ele foi enviado pela rainha regente para assumir o controle do forte Coligny. Surpreso, Mem de Sá revê seu sobrinho vindo de Lisboa no comando de uma das naus com a missão de expulsar definitivamente os franceses e fundar a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.   Estácio de Sá chega à Guanabara em 6 de fevereiro de 1564 junto com a armada do almirante Bartolomeu,  mas decide buscar reforços em São Vicente.

Lá, pela influência dos padres Nóbrega e Anchieta, Estácio consegue o apoio de mamelucos, índios e mestiços comprometidos com a defesa da terra por serem nascidos na colônia.  Após percorrer vilas e fazendas para arrecadar recursos e homens os jesuítas Nóbrega e Anchieta entregam a Estácio de Sá o resultado da missão. A nau capitania deixou São Vicente em 22 de janeiro, enquanto Anchieta abriu vela a partir de Bertioga em direção à Guanabara  e ficou aguardando mais reforços que seguiriam em bergantim e canoas.   Era o dia primeiro de março de 1565 quando desembarcaram com sua tropa na praia junto ao Morro Cara de Cão.  Celebrou missa e fundou a cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro em homenagem a Dom Sebastião, O Desejado ainda menor e futuro rei de Portugal. Na ocasião consta de documentos que proferiu as seguintes palavras:

 “Para que El-Rei, a Pátria, o Brasil e o mundo todo conheçam o nosso denodado valor, levantemos esta cidade que ficará por memória do nosso heroísmo e exemplo às vindouras gerações. Levantemos esta cidade para ser rainha das províncias e empório das riquezas do mundo”.

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Aguardando os reforços de Bertioga, Bartolomeu, Mem de Sá e Estácio acertaram os últimos detalhes do ataque ao forte.  Bem equipados com duas naus, três galeões e seis caravelões acrescidos de um bergantim e muitos barcos ligeiros.

Enquanto isso, Francisco Velho[4] tratou de erguer uma igrejinha, localizada nas cercanias da praia do Flamengo. Ela foi cercada de cabanas para acomodar os pioneiros em terra. A igrejinha foi entregue ao padre Gonçalo de Oliveira e a batizaram de igreja de São Sebastião.

Antes de completar uma semana de posse da praia os tamoios já tinham se aproximado duas vezes para atacar e sequestrar os invasores.

Numa manhã de sol, Francisco Velho estava pescando na baía próxima a enseada quando um grupo de índios começou a cercar sua canoa. A providencia divina fez a sentinela da praia dar o alarme.  Incontinente, Estácio e a tropa, de guarda permanente, lançaram quatro velozes canoas que partiram em direção de Francisco. Ao aproximar de seu barco vinte canoas repletas de índios já o tinham cercado enquanto outros tantos botes se aproximavam.  Os portugueses se desesperaram e um deles ao preparar seu arcabuz atiçou fogo na pólvora que estava em baixo do banco do barco. Uma forte explosão jogou ao mar quase todos. Houve debandada geral, a maioria dos índios nadaram se afastando e outros se afogaram de susto. Sobraram três canoas que ampararam o retorno dos portugueses.  Estava armado o mito da Batalha das Canoas que relata os céus terem se aberto e São Sebastião com armadura no peito e arco em punho, pulando de barco em barco e assassinando os índios até que os sobreviventes fugissem apavorados pelo apoio sobrenatural. A verdade é que durante muitos anos comemorava-se, em janeiro, a Batalha das Canoas na baía de Guanabara. Portanto, não foi surpresa para nós a oferta da coroa de flores feita por D. Orani Tempesta a bordo do navio da Marinha na semana passada. Como sempre acontece em uma sociedade que não preserva seus valores, a tradição desta comemoração tinha sido esquecida.

A batalha final ainda estava para acontecer e ocorreu dois anos após o desembarque na praia. Acuados, permanentemente, pelos tamoios não tinham mais como sobreviver sem perigo. Aproveitando o apoio de Cristóvão de Barros partiram para o ataque.  A armada foi dividida em duas sob o comando de Estácio e o almirante Cristóvão. Foram três dias de refrega violenta finalizando com centenas de baixas.  Aimberê foi flechado e morto. Segundo historiadores todos os índios foram dizimados e suas cabeças cortadas, tamanho o ódio dos aliados  e aculturados vindos de São Paulo.    Embora não se tenha noticias de nenhum francês morto, as baixas em seus índios aliados foram  muito violentas, pois dizimaram também a aldeia de Uruçumirim; a reconquista teve um preço elevado: 132 portugueses foram mortos.

Infelizmente, Estácio de Sá foi flechado no rosto, agonizou cerca de 30 dias, morrendo nos braços de Anchieta.

Seu corpo foi sepultado na capelinha levantada por Francisco Velho e dezenove anos depois (1583) transladou-se seus restos mortais para a nova igreja construída pelo Governador  Salvador de Sá no Morro do Castelo, até então chamado “Morro do Descanso”.

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Daniel de La Touche[5], relembrando do sucesso da viagem às costas da Guiana em 1610 arquitetou o estabelecimento da França Equinocial. Com três naus (Régente, Chrlote e Sante Anne), 500 colonos e três frades capuchinhos,  parte de Cancale abriram velas em 19 de março e atravessaram o equador em 17 de junho após viagem difícil.  Na manhã de 23 de junho, aportaram na ilha de Fernando de Noronha. De lá navegaram em direção ao continente e chegaram à costa do Maranhão onde se estabeleceram. Batizaram o local de Saint Louis em homenagem ao rei da França Luis III. Os frades capuchinhos que acompanharam a expedição rezaram a primeira missa em 8 de setembro de 1612. Iniciada a construção do forte, expandiram a conquista até o norte do estado do Tocantins. Entretanto, não resistiram à ofensiva das tropas de Alexandre de Moura a partir de Pernambuco e acabaram expulsos da colônia em 4 de novembro de 1615.

Mesmo assim, quando o almirante Gaspard Coligny, líder calvinista devidamente autorizado por Henrique II e Carlos IX tentou implantar-se no Brasil, seu êxito foi postergado pelo naufrágio na costa do Maranhão em 1594.  O almirante Coligny e seu companheiro Riffault conseguiram sobreviver e graças as boas vindas recebidas dos tupinambás, com quem já negociavam o pau Brasil em troca de bugigangas e ferramentas. Assim sendo, puderam depois regressar à França sem baixas, deixando o companheiro De Vaux que soube ganhar a simpatia dos índios.   A Casa Real francesa ficou entusiasmada com o resultado da viagem, mas a morte do rei paralisou o projeto.

Todavia, insistiram com a rainha regente visto que o propósito era a conquista de novas terras na América e o objetivo da ordem religiosa que iria acompanhar a expedição era estabelecer a fé cristã na nova terra e catequizar os índios na medida de suas forças. Os escolhidos foram os freis capuchinhos Ivo d’Evreux, Claudio d’Abbeville, Arsênio de Paris e Ambrósio d’Amiens.

Enquanto os portugueses ocupavam-se com a extração de madeira e a construção dos trapiches, os franceses já acantonados no Maranhão iam colonizando a terra conquistada; os frades capuchinhos franceses e italianos realizaram um belo trabalho de evangelização junto aos índios.  Infelizmente para os franceses a posse da terra fortemente contestada pela coroa portuguesa não conseguiu sobreviver além de dois anos de luta armada que acabou favorecendo a coroa portuguesa.

Os franceses foram rendidos em 19 de novembro de 1614, ocasião em que frei capuchinho Arcanjo decidiu regressar à França com todos seus companheiros de ordem. Em razão do elevado conceito dos capuchinhos o Papa Paulo V revogou os privilégios já outorgados às Ordens atuantes e eles decidiram regressar ao Brasil.

Quanto aos holandeses em duas ocasiões penetraram na costa brasileira. Trouxeram da África missionários capuchinhos como prisioneiros e, dessa forma, ficaram todos sob a tutela dos hereges holandeses. Chefiados pelo Conde de Nassau que se auto determinou Governador, concedeu autorização  para que os missionários fundassem um hospício[6].   Nassau não interferiu nas atividades dos capuchinhos e eles fizeram um notável trabalho de evangelização.  Em meio a ironia do destino, num momento de grandes incerteza para a fé católica, Deus fez a sua parte fazendo com que os capuchinhos bretões  espalhassem o zelo a serviço de Deus, mesmo no ambiente  herege dos holandeses. Portanto, não foi surpresa que após a derrota dos holandeses os missionários decidissem ficar com os portugueses para a satisfação de D. João IV.  A recompensa veio em 1650 quando o soberano requisitou os Frades Menores Capuchinhos para se estabelecerem no Rio de Janeiro.

A partir de um pequeno hospício e ciosos de sua renúncia a toda e qualquer conforto elementar, viajavam a pé com seu Borjão e breviário, sua bata surrada e sandálias velhas pelos campos sem estradas e meios de comunicação. Por onde passavam deixavam um rastro de saudades e benefícios. Construíram açudes, cercavam cemitérios, levantavam igrejas, pacificavam revoltas e santificavam lares.  Ao se despedir o povo tentava impedir e implorava que ficasse, pois os hábitos simples, a coragem, a humildade, barba longa e sandálias rotas, denotavam a postura santa de todos. Portanto, não foi espanto que após trezentos anos de missão, Câmara Cascudo tenha dado a alcunha de Santos Missionários a todos eles. Nas viagens apostólicas concentravam-se pelas terras do atual estado do Rio, Minas, Espírito Santo, São Paulo e Rio Grande do Sul. A intolerância fazia parte daqueles que não aceitavam mudanças e a postura dos barbadinhos, mais humildes e tolerantes, destoava dos demais. Um episódio notório daqueles tempos de repreensão ocorreu em Lisboa quando os jesuítas ao chegaram expulsos do Brasil encontraram, no mesmo cárcere  capuchinhos  italianos vindos de Roma e que não tiveram a chance de embarcar para o Brasil. Por decisão de Pombal todos os missionários nascidos em território pontifício estavam expulsos de Portugal e suas colônias. O Governador Gomes Freire felizmente, poupou os capuchinhos que já estavam no convento do Rio de Janeiro e todos puderam continuar trabalhando, embora sem esperanças de conseguir reforços de novos missionários do reino. Sem alarde os barbadinhos, nesse período, enfrentaram muitas vicissitudes, (fruto da inveja e ciúme de outras instituições) até fixarem-se no Morro do Castelo ao lado da igreja de São Sebastião.  Alojados em duas casas ao lado da antiga Sé, abandonada desde 1659 e em ruinas, os capuchinhos assumiram a igreja em 1842. Na verdade o namoro da Ordem pela igreja nasceu bem antes, pois o Vice-Prefeito dos capuchinhos, Frei João Antônio de Lucca, já tinham solicitado a igreja ao governo trinta anos antes, ou seja, desde 1811. As autoridades já tinham oferecido diversas opções para a Sagrada Congregação escolher.  Entretanto, Frei Fidelis de Montesano optou pela mais pobre e aniquilada de todas, a igreja de São Sebastião do Morro do Castelo, atitude bem “capuchinha” da Ordem. Aliás, meses antes, um violento temporal desabou sobre a cidade, inutilizando o que restou da igreja. Como sempre, em busca de culpados, a imprensa injusta acusou os irmãos capuchinhos pela calamidade e destruição do prédio. Quando Frei Caetano de Messina deixou a Prefeitura Apostólica de Pernambuco para assumir o Comissário Geral dos missionários capuchinhos na corte, já estávamos no final de 1860. Era uma figura exemplar e pelo muito que fez em Pernambuco o chamavam de “Missionário Gigante”. Imediatamente assumiu a reconstrução da antiga Sé e com apoio do povo e da corte reconstruiu a igreja, restaurando o túmulo abandonado de Estácio de Sá.

A missão dos capuchinhos no Rio de Janeiro foi uma extensão do belo trabalho realizado no Congo, Matamba e Angola aonde chegaram a ter cento e vinte missionários numa fantástica epopeia que encheu de orgulho a Igreja. Enfrentando os perigos da viagem, insalubridade, isolamento, terror pela morte violenta dos colegas e elevado índice de óbitos, venceram com galhardia todos os óbices, deixando um legado para a posteridade.

Obrigados a cederem igreja e convento para a derrubada do Morro do Castelo e a preparação da área para a Feira Internacional, os capuchinhos optaram por permutar por um terreno na Tijuca onde seria construída a nova igreja e convento. Até então os capuchinhos estavam residindo, provisoriamente, na agência dos Correios e Telégrafos na rua Conde de Bonfim 290. Lá permaneceram durante nove anos juntamente com as relíquias removidas do Morro do Castelo e dignamente guardadas na residência provisória (Imagem de São Sebastião, Marco da Fundação da Cidade e Cinzas de Estácio de Sá).  Esta ampla casa pertencia às religiosas de clausura Monjas do Ajuda reconhecidas como doceiras famosas no Rio de Janeiro antigo. A prefeitura comprou o prédio e cedeu aos capuchinhos até que a igreja e convento ficassem prontos.

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Às sete e trinta horas da manhã do dia 15 de agosto de 1931, na capela inacabada, os sinos do Convento Provisório dos Capuchinhos anunciaram o momento da partida do cortejo que, saindo da Praça Saenz Peña transportaria as relíquias até a igreja do Padroeiro em construção na Rua Hadock Lobo.  Após a salva de artilharia em funeral em honra aos bordados do General Estácio de Sá; foi apresentada a continência às cinzas prestadas pelo primeiro batalhão do 3º RI; batedores de quatro cavalarianos dragões seguidos dos escoteiros conduzindo o Pendão das Quinas, bandeira nacional e da Santa Sé e a banda de música. A seguir a carreta de artilharia conduzindo a urna funerária ladeada pelo pelotão de marinheiros, fuzileiros navais e soldados do exército. Fechando, a Guarda de Honra e as delegações da Escola Militar e Escola Naval, bem como a escolta dos Dragões da Independência, oficiais do Exército e da Armada, Polícia Militar, Corpo de Bombeiros e membros do Instituto Histórico e Geográfico.

O cortejo de honra às relíquias de São Sebastião teve a Cruz de Cristo levada por um frade capuchinho  e, sob o pálio, as relíquias conduzidas pelo Mons. Dr. Francisco Mac-Dowell  Pároco da Paróquia de São Francisco Xavier assistido por Frei Eugênio de Cômiso, Superior dos Frades Capuchinhos do Rio de Janeiro. Todas as pastorais da Paróquia de São Francisco Xavier seguiam o pálio, bem como comissão dos Dominicanos, Franciscanos, Carmelitas Descalços, Passionitas e Saletes. O andor da imagem foi transportado nos ombros dos jovens das Escolas Militares.

Ao chegar ao destino final a carreta com a urna funerária transpôs o portão do pátio da igreja e ouviu-se a descarga Ordenança como última honra militar ao fundador da cidade e o Hino Nacional tocado pela banda militar postada no pátio da igreja. Todas as autoridades civis e militares estiveram presentes à missa solene celebrada por Dom Justino de Santana, bispo de Juiz de Fora, acolitado pelo Cônego Jácomo Vicenzi.

Ubirajara de Carvalho – ubicarvalho@yahoo.com.br

Bibliografia

1. Fazenda, José Vieira. Antiqualhas e memórias do Rio de Janeiro. Imprensa Nacional 1934. Rio de Janeiro.
2. Leite de Faria, Francisco, Os Barbadinhos Franceses e  Restauração Pernambucana. Coimbra Ed. 1954.
3. P. Fr. Jacinto de Palazzolo. Crônica dos Capuchinhos do Rio de Janeiro. Vozes, 1965. Petrópolis.
4. Armstrong, Karen. Uma Historia de Deus. Companhia das Letras, 1954. Rio de Janeiro.
5. Viana Hélio, História do Brasil, tomo 1, página 94,
6. Boxer,Charles, O Império Marítimo Português- 1415-1825. Compamhia das Letras, 2002. São Paulo.
7. Lamego, Alberto Ribeiro. O homem e a Guanabara. Serviço Gráfico do Instituto Brasileiro de Geografia, 148. Rio de Janeiro.
8. Doria, Pedro. 1565  Enquanto o Brasil Nascia. Nova Fronteira, 2012. Rio de Janeiro.



[1]Advogado e Teólogo, lider da invasão francesa, buscando  estabelecer a França Antártica para acolher os franceses protestantes perseguidos pela guerra religiosa na França. Contemporâneo de Calvino, Inacio de Loyola e Francisco Xavier na Universidade de Paris.

[2]Frade franciscano que permaneceu três meses com Durand e retornou à França por ter ficado doente. Publicou uma interessante narrativa de viagem Le singularitez de la France Antartique. Fêz  duas viagens anteriores à colônia do Brasil.

[3]Sobrinho de Durand e responsável pela busca de reforços na França.

[4]Mordomo da Confraria de São Sebastião.

[5]Experiente capitão da marinha francesa do século XVII.

[6]Refere-se a residência ou moradia dos capuchinhos.

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