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São Francisco Xavier se transmutou

No caminho de Malaca e ainda no Mar do Japão cinco dias se passaram sem que o sol aparecesse. A nau São Miguel enfrentava um mar sombrio e o vento muito violento ajudava a levantar as vagas ainda mais, cobrindo o convés do navio. Todos clamavam, ninguém vai se salvar. Os gritos não são ouvidos porque a fúria do oceano abafava o som do desespero. No intervalo do choque das ondas contra o casco, um som uníssono é ouvido:

Meu Deus! Meu Deus! Quinze homens que estavam na chalupa foram tragados pelas ondas do mar.

Vamos acudi-los, grita depressa o piloto.

Não podemos atender senão morreremos todos.

Vira de bordo para salvá-los antes de soçobrar-nos!…

 O capitão ordena a perigosa manobra em vão, pois uma montanha de água despenca sobre a barca e o joga na bacia da onda, quase naufragando com todos. Passageiros e marinheiros agarram-se às cordas na tentativa de salvação. O desespero toma conta de todos, menos um concentrado em oração sobre a ponte.

A chalupa estava bem amarrada à nau, mas a tormenta violenta da noite rompeu as amarras. O desespero do capitão D. Eduardo da Gama se sobressai aos demais. Ele chora pela perda de seu sobrinho Afonso Calvo que, da chalupa exclama:

Jesus! Salvador dos homens, socorrei-nos.

 O São Miguel levanta-se da bacia das ondas gigantes e o capitão implora aos gritos:

– Procurem a chalupa!

Nada é visto. O mar… e só o mar. A embarcação foi a pique.

A viagem prossegue em uma só tristeza. O padre Francisco Xavier sobe para o convés, quando uma vaga gigantesca encobre o navio, ouve-se uma voz entre as águas:

– Jesus, amor da minha alma, socorrei-nos. Eu vo-lo rogo pelas venerandas chagas que vos fizeram na cruz por vossa causa!

Incontinente, o São Miguel (a nau) retorna à superfície e ninguém morrera. A tempestade diminui e a viagem prossegue.

– Procurem a chalupa! Ordena novamente o capitão.

 A marujada sobe e desce nas enxárcias em vão. A embarcação foi a pique.

Entristecido pelos dois muçulmanos sem que houvesse tempo para convertê-los, Xavier vertia lágrimas e pedia a Deus a salvação de todos e o regresso em segurança. Aproxima-se do capitão e fala:

– Meu capitão, acalmai-vos que a chalupa voltará.

Tudo acabado meu padre, só mesmo por um milagre. Entretanto Xavier havia dito:  Ela voltará. Com a esperança renovada o capitão ordenou ao marinheiro subir até o cesto da gávea.  Após receber a confirmação e nada no mar, Xavier retirou-se e depois de duas horas em oração tem uma vertigem, felizmente amparado por Francisco Mendes, retorna à ponte e indaga:

– Então Capitão, vê-se a chalupa?

 – Não, meu padre! Rogo-vos por favor que descanses um pouco em minha câmara.

O capitão ainda não sabia que Xavier por respeito à sua pobreza, quando embarcava não aceitava câmara em nenhum navio. Deitava no chão e como travesseiro usava um punhado de cordas. A insistência obrigou Xavier deitar-se no chão do convés e o escravo chinês encarregou-se de vigiá-lo para que ninguém o estorvasse. Ele não dormiu, simplesmente fechou os olhos e permaneceu em oração até o sol desaparecer.

A pedido do padre, o barco foi colocado à capa morta, para que a chalupa pudesse se aproximar. Mas ninguém enxergava a chalupa e os passageiros da São Miguel, que sofriam com o forte balanço com as velas recolhidas, começaram a gritar:

Arma as velas! À vela capitão. À vela! À vela!

O padre Xavier rompe em soluços pedindo paciência a todos e, levantando os olhos para o céu, exclama:

– Jesus! Meu Senhor e meu Deus! Eu vos imploro pelos sofrimentos da vossa Santa Paixão, que tenhais piedade daquela pobre gente que vem para nós através de tantos perigos!

 Depois, levanta-se num repente e dirigindo-se para D. Eduardo roga que faça subir um dos homens para o cesto da gávea. Em deferência ao pedido de Xavier o capitão decide subir ele mesmo, deixando o clamor e revolta dos passageiros para outros ouvirem.  Ficou em observação durante meia hora até que, estarrecido e sem compreender, vê a chalupa encostada ao casco, indiferente ao balanço do mar ainda revolto. A chalupa permanecia imóvel enquanto os quinze homens subiam a bordo agarrando-se ás cordas.

A euforia era grande e todos correram para se ajoelharem junto ao santo padre. Todos falam ao mesmo tempo e o capitão ordena:

– Que um fale por todos. Afonso Calvo fala você por todos.

– Nada nos aconteceu. Eu nunca vi um piloto tão capaz como o padre Francisco. Ele guiou-nos por entre escolhos com grande perícia. O mais prático dos marinheiros não faria melhor.

 Todos ficam surpreendidos e pasmo. O capitão acreditando que o sobrinho enlouquecera, lança um olhar de reprovação e responde:

– O padre Francisco não estava convosco. Ele estava conosco na São Miguel.

Sim! estava, responderam todos ao mesmo tempo. E ele pode nos dizer melhor do que nós. Onde ele está?

 O padre Francisco foi encontrado orando em ação de graças.

Insatisfeito com a negativa de seu tio e capitão D. Afonso retruca:

– Ele não nos deixou um só momento; aliás você não viu como ele foi o primeiro a subir a bordo?

 Para todos os que viveram aquele momento o fato é suficiente; a maneira como ele nos trouxe é um grande milagre; a sua presença sobre a chalupa, quando está provado que ele não deixou o navio é um milagre maior ainda.

Espantados, os dois muçulmanos falam entre si:

– A religião do profeta nunca fez tais prodígios e, nós o dizemos abertamente, vamos pedir o batismo ao padre Francisco.  Se Jesus Cristo não fosse Deus o santo padre, como nós o chamais, não faria tão grandes milagres em seu nome.

 Estava tudo explicado. D. Afonso não estava louco; os seus catorze companheiros não o estavam também e Deus operara uma sucessão de prodígios a rogo do grande Xavier. Salvara o São Miguel, salvara a chalupa; conduzira esta ao navio; acalmara a violência da tempestade; tornara sensível a presença do seu santo apóstolo em dois lugares ao mesmo tempo, tudo durante vinte e quatro horas.

Fonte: A vida de São Francisco Xavier, por J.M.S. Daurignac

Colaboração: Ubirajara de Carvalho (Membro do Apostolado da Oração).

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