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Os Jesuítas e a Igreja padecente no Brasil colônia

Fonte: O Globo, fev/2019

Desde a época da implantação da ordem religiosa fundada por Inácio e seus companheiros, o clero secular teve dificuldade em aceitar os jesuítas e não foi diferente no Brasil colônia. Na verdade, as razões vinham de longe, notadamente, após 1540 quando a Companhia de Jesus se firmou nos destinos de  Portugal, livrando o reino dos humanistas portugueses, se tornando confessores do rei D. João III e sua corte, tornando depois os responsáveis diretos pelo ensino no reino e nas colônias, onde durante quarenta anos foram exclusivos no Brasil até 1580 quando o rei espanhol D. Filipe  II assumiu Portugal.  Era o desejo do rei D. João III catequizar o povo conquistado, incluindo os nativos em estado pagão.  A dedicação total fundamentada no desprezo do mundo incomodava o clero.  Aliás, Simão Rodrigues já tinha dito a Inácio que a Companhia de Jesus representava a abjeção do mundo e loucura por Cristo. Jesus já tinha dito aos apóstolos que escolheu aqueles que eram  pobres e fracos para confundir os fortes

Bem ao feitio dos jesuítas, Manuel de Nóbrega já era conhecido no reino como o procurador dos pobres e exercia suas atividades na Beira quando foi convocado para juntar-se a Tomé de Sousa na viagem para o Brasil, quarenta e nove anos após a desembarque de Cabral.

Ele veio dirigir a primeira missão da Companhia de Jesus no Brasil e que, mais tarde se tornaria a primeira província fora de Roma.  Nobrega ficou chocado com o que encontrou na terra conquistada. Ela estava no estado latente em que foi encontrada por Cabral. Ficou assustado com o costume dos nativos que viviam nus e mais ainda com as moças que nada trajavam. Enquanto isso, os tripulantes, colonos e degredados passaram a viver com as nativas que preparavam a comida e dividia a cama, Nóbrega observava que outras insinuavam-se aos colonos, desejando agir da mesma forma pois consideravam uma honra se oferecer aos colonos europeus. Elas faziam todo o trabalho de casa, inclusive teciam os fios de algodão, um misto de escravas e fonte de prazer. A indignação de Nóbrega era refreada pela falta de salário dos que trabalhavam e desanimados por não terem os salários em dia, não obedeciam a suas ordens. Ele esbravejava com os colonos, mas não era ouvido. Insistia muito com Lisboa para que mandassem mulheres brancas e cristãs. Seria uma gota de água no oceano, mas serviria de exemplo. Aos mais esclarecidos do reino, Nóbrega insistia para pressionassem a corte para enviar órfãs portuguesas e filhas de funcionários mortos e acolhidas na Instituição de Nossa Senhora da Encarnação; infelizmente, apenas 20 órfãs foram enviadas ao longo de sete anos.

Nóbrega tudo fez para acabar com a imoralidade sob o ponto de vista cristão, mas só o tempo viria dar uma solução. Com ele vieram mais seis jesuítas que valiam por um batalhão inteiro. Submetidos a uma disciplina rígida para atender os rigores da missão, superaram a fome, sede e fadiga em meio a lama, atravessando rios sem saber nadar para salvar pessoas e animais tal como aconteceu com São Francisco Xavier ao sair de Bolonha a caminho de Lisboa, caminhar e atolar-se nas areias da Costa da Pescaria para visitar as diferentes comunidades catequizadas e com José de Anchieta que se atirou no rio sem saber nadar, a mando de Nóbrega, para salvar um cavalo e regressou enxuto até a margem. Na colônia os jesuítas chegavam à exaustão e eram todos determinados tal qual Thor e Brida no lodo contaminado de Brumadinho.

Cinco meses passados e dois dos jesuítas já tinham aprendido a língua e os pequenos curumins já cantavam canções em tupi traduzidas pelo padre Azpilcueta. Tal como São Francisco Xavier em Ternate nas ilhas Molucas em 1542, disciplinavam-se durante a noite, açoitando-se a si próprio de forma rude, cientes de que estavam em pecado mortal pela não conversão dos nativos.  Uma cena impactante ocorreu em setembro de 1549 quando o padre Navarro açoitou-se no centro de Salvador a avisou aos nativos que castigava a si para que Deus não castigasse a eles. Em breve muitos nativos se converteram.

Nóbrega, incansável na tentativa de disciplinar os nativos e colonos, insistia com Simão Rodrigues na necessidade de ter um bispo para ajudar a por fim aos descalabros. Afirmava de novo com Simão para que a escolha fosse cuidadosa e que o bispo viesse pata trabalhar e não para ganhar.  As insistentes cartas acabaram surtindo efeito e com a aprovação do rei D. João III fez desembarcar em Salvador (junho de 1552) D. Pero Fernandes Sardinha, o primeiro bispo do Brasil.

– Que venha para consertar a Colônia e não para arrecadar dinheiro. Foram as proféticas palavras de Nóbrega para si mesmo.

Tão logo chegou o bispo ficou irritado com a excessiva devoção de Nóbrega e sua turma, esquecendo-se que chegou ao Brasil a pedido dos próprios jesuítas que necessitavam de um líder forte para arrumar os costumes. De imediato aproveitou de uma nau que zarpava para Lisboa encaminhando uma carta exigindo que Simão Rodrigues sustasse a campainha e o martírio público, contradizendo as mesmas práticas exercidas por São Francisco Xavier na Ásia para quebrar a soberba de quem falava em nome de Cristo.

Sardinha conhecia bem a atuação dos jesuítas pois foi professor do grupo fundador em Paris. Na colônia foi um perseguidor implacável dos jesuítas, proibindo-os de pregar em tupi e fazer confissões com a ajuda de intérprete. Proibiu o uso de cânticos e instrumentos nativos nas aulas de catequese e, não satisfeito, obrigou as crianças a mudarem o tradicional corte de cabelo, criando atrito com os pais. Por fim, proibiu os jesuítas de frequentarem as capelas erguidas nas cercanias de Salvador com a ajuda dos nativos. Tornou inerte as atividades dos jesuítas na Bahia e voltou sua atenção para os colonos, notadamente, aqueles estabelecidos, fonte de renda para si, substituindo as penas eclesiásticas por pecuniárias, obrigando-os a pagar alto valor em moeda corrente pela absolvição de seus pecados.

Sardinha, nascido em Évora era um homem culto formado em direito e teologia em Salamanca e Paris. Lecionou no Colégio Santa Bárbara e jamais aprovou o programa da Companhia de Jesus.  Regressou a Portugal e foi enviado para a Índia como visitador geral. Relatou para D. João III os escândalos e desvios de verba sem sucesso. Entretanto, não deixou boa imagem por lá, tendo sido acusado por Garcia de Sá de corrupção e desvio de dinheiro. Retornou para Portugal quando foi nomeado primeiro bispo do Brasil. Chegou na Colônia bem forrado financeiramente, com renda anual de 200 mil reais embolsado adiantado e outros 200 mil reais de pensão vitalícia, além de negociar a participação nas miunças (imposto decimal sobre a venda de coisas miúdas como frango, leitão, ovos etc.) com o rei. Sardinha espalhava o terror entre os comerciantes e todos fugiam dele.

Ele desautorizou o comando de Nóbrega e as tarefas dos jesuítas, criando um clima difícil para a missão em Salvador. Nóbrega chegava às lágrimas e desgostoso com a situação procurava apaziguar si próprio em obediência à hierarquia, mas a situação foi ficando insustentável. Mas Deus fez acontecer. Tomé de Sousa desejando vistoriar o Sul onde os franceses e holandeses barganhavam pau Brasil, decidiu partir. Foi uma oportunidade para que Nóbrega pudesse embarcar sem caracterizar uma fuga.

Ilustração da morte do bispo extraída de um medalhão

Passaram por Ilhéus e Porto Seguro enfrentando querelas e dificuldades, mas a missão continuava. Chegaram a São Vicente três meses após a partida de Salvador e lá encontraram um núcleo da armada de Martim Afonso de Sousa que por lá passou em 1532. Entretanto, tomaram conhecimento que o padre Leonardo Nunes, o primeiro jesuíta a desembarcar no sul do Brasil já tinha estado lá desde 1550. Tomé e Nobrega com sua turma decidiram se instalar em São Vicente e a missão prosperou. A conquista de São Vicente foi o caminho para a abertura de outras conquistas definitivas até o extremo sul da colônia, inclusive Assunção cujos resultados todos nós já conhecemos.

Enquanto isso Sardinha espalhava o terror exigindo confissão e perdão em troca de elevadas somas e foi ficando sem clima para continuar seu trabalho. Após o regresso de Tomé de Sousa para Portugal, Sardinha se indispôs com seu sucessor Duarte Coelho provocando uma gravíssima crise em Salvador. Ele foi chamado de volta pelo rei e com ele o demitido provedor da fazenda. Juntos embarcam cerca de noventa portugueses que defendiam a postura do bispo. A nau Nossa. Senhora da Ajuda levantou ferros em 2 de junho e naufragou 15 dias depois na foz do rio Corugipe no litoral de Alagoas. Ele pretendia reclamar pessoalmente ao rei D. João III mas o monarca se antecipou. A embarcação levou para o mar toda a carga, inclusive os barris com o ouro de Sardinha. Todos foram capturados, torturados e mortos pelos índios caetés, tendo escapados três deles que conseguiram fugir.

Colaboração: Ubirajara de Carvalho (Membro do Apostolado da Oração)

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