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O Milagre da bota de Pequim

Coimbra 3 de dezembro de 2002, João Maria quartanista de História na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, estava assistindo a última aula do professor Vaz de Almada. Ao término da exposição ele já não era o mesmo. Ficou perturbado com a dissertação sobre a missão de São Francisco Xavier no Oriente, tema escolhido pelo professor para celebrar a festa do santo, e perplexo ao tomar conhecimento como um homem continuava ser reverenciado por católicos, hindus e muçulmanos num Oriente ainda conturbado após 500 anos de sua morte.

Na China sentiu pisar em solo sagrado e, comentou com seu professor ao regressar, que sentiu um nó na garganta ao chegar em Pequim. A excursão foi conduzida por um intérprete, mas o proveito maior estava reservado para o penúltimo dia da visita quando se afastou da comitiva, por certo pela ação divina, e se dirigiu a um local desconhecido onde foi apreciar os artigos do passado chinês no mercado Xamsé. Encantou-se com um par de botas[1] usadas que acabou comprando, convencido de ter pertencido a um mandarim. Não entendeu a razão da escolha, mas estava decidido presentear seu professor que tanto o ajudou na preparação da viagem. Entregou o presente ao professor Vaz e se retirou. Ele passou uma flanela seca nas botas e, ao enfiar a mão numa delas, encontrou um rolinho de papel bem amassado e gasto na iminência de se desfazer junto com o couro da bota. Abriu, cuidadosamente, três longos pedaços de papel bem enrolado e amassado, escritas a mão. Ficou emocionado e sentindo ter encontrado um documento antigo, convocou seu ex-aluno de imediato. Investigaram o que estava escrito. Observaram mais tarde que a caligrafia era idêntica a outros escritos de Francisco Xavier. Foi difícil a leitura e interpretação já que o português antigo era quase incompreensível. Foi necessário utilizar iluminação concentrada para desvenda-lo.

Tratava-se de duas cartas manuscritas,[2],[3] redigidas em Goa e na ilha de Sanchoão. A primeira era datada de 17 de abril de 1552 endereçada à sua irmã Ana; outra escrita dois dias antes de sua morte (03 de dezembro de 1552) na Ilha de Sanchoão, que iria ser encaminhada para Roma e destinada a Inácio de Loyola, seu superior.

Graças a presteza de seu criado Antônio, que a pedido, lhe cedeu papel, caneta e tinta, quando Francisco já estava sem forças.  Pediu ainda, que lhe entregasse a banqueta, e a colocasse junto ao peito e se retirasse. Superando dores e náuseas, Francisco redigiu sua última carta; ambas não chegaram ao destino.

Aquela carta redigida em Goa para sua irmã, dias antes de embarcar para Malaca foi a primeira escrita a um familiar desde 1535 quando Inácio levou uma carta de Xavier, ainda aluno em Paris, para seu irmão João de Azpilcueta que se encontrava escondido em Navarra para não ser preso.

Não tendo mensageiro confiável, no momento, para a Europa, Xavier decidiu dobrá-las, enfiar na sola da bota e aguardar o momento oportuno que nunca aconteceu. É difícil imaginar o que teria sentido Ana, saudosa do irmão caçula que nunca mais o viu desde que partiu para a França aos 19 anos caso tivesse recebido esta carta, ela que tanto o ajudou, apoiando financeiramente nos momentos difíceis sem que ele soubesse. Entretanto, por decisão divina, hoje é de conhecimento de todos que se interessam pelas coisas de Deus. A emoção tomou conta do ambiente e foi difícil conter as lágrimas. Afinal, foram as duas últimas cartas de São Francisco Xavier escritas ainda em vida. No meio do silêncio o professor Vaz comentou:

João Maria, estás emocionado! Mas se tu conhecesses a sua vida de missionário ficarias impressionado. Deus fez dele um gigante. Apesar de Deus, fazer de todos os que se deixam, a ser grandes.

Ainda restava um papelzinho bem surrado que todos leram.

–  Professor, é uma oração!

Tempos mais tarde se descobriu ser o soneto preferido de Xavier, composto e dedicado ao Cristo Crucificado do Castelo de Xavier, aquele que derramava lágrimas de sangue toda vez que Francisco Xavier passava por momentos difíceis no Oriente e foram muitos. Este poema foi disperso na Europa no século XVII e os historiadores creditam a São Francisco Xavier, o que acabou de ser confirmado pelo achado na bota.

As cartas mencionadas, não estão incluídas na relação das 117 cartas e escritos de São Francisco Xavier já publicadas, porque a divulgação só ocorreu a partir do início de 2005.  Reservados por hábito da Companhia de Jesus, o jesuíta Carlos Carneiro, hoje Diretor do Centro de Reflexão e Encontro Universitário Inácio de Loiola, aguardou a V Semana de Estudos de Espiritualidade Inaciana para divulgar publicamente o ocorrido e um pouco mais para chegar a notícia nas Américas. A Companhia de Jesus sempre foi muito cuidadosa com as coisas de Deus e restritiva com relação à divulgação; muitas vezes, o milagre ficava restrito ao local da ocorrência.

Naquela época em que os papeis eram frágeis e de má qualidade, não estando preparados para sobreviver tão longamente, como foi possível isto acontecer? Como aceitar que a bota tenha resistido quase cinco séculos, aguardando a divulgação do achado para se desfazer logo após?

A explicação:

Deus comanda e desafia as leis da natureza de acordo com a sua vontade e fez os documentos se preservar por 450 anos, passando de pé em pé, em diferentes ambientes agressivos e sufocados para que a humanidade tomasse conhecimento de mais um milagre para a glória de seu nome e grandeza de seu santo.

[1] O que resta da bota está preservada no Museu da Universidade de Coimbra. (Foto do Professor Paulo Elvas de Andrade, Coimbra, 2018).

[2] Carneiro, Carlos SJ. O milagre da Bota de Pequim, contido na V Semana de Estudos de Espiritualidade Inaciana (SEI). Porto, 2005.

[3] Carvalho, Ubirajara de. São Francisco Xavier – Sua Missão Evangélica na Ásia no Século XVI (íntegra das cartas), p. 205.213. Daugraf Gráfica e Editora, Rio de Janeiro, 2009.

Colaboração: Ubirajara de Carvalho (Membro do Apostolado da Oração).

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