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O ecumenismo em terras proibidas

Igreja de Santa Brígida em Gdansk- Polônia

A recente visita do papa Francisco na península arábica na semana passada avivou, mais uma vez a tentativa de alimentar o diálogo entre cristãos e muçulmanos. Entretanto, não podemos esquecer o enorme esforço do papa João Paulo II, hoje santificado, quando da queda do muro de Berlim, fruto de sua sagacidade e empenho. Vamos aos fatos:

Ano de 1989, imediatamente após a queda do muro de Berlim estavam os investidores norte-americanos cientes que seria difícil acertar o passo em seus projetos no Leste Europeu. Mas, acreditando nos méritos do papa João Paulo II que encontrou um caminho de saída pacífica para o regime comunista na Polônia, não tripudiando os vencidos e afastando o sentimento de vingança, concluíram os investidores valer a pena tentar. Seriam os primeiros a investir na Polônia e a liderança mundial do grupo merecia a tentativa. Outrossim, serviria de exemplo para outros investimentos nos países da então cortina de ferro que necessitavam de capital e emprego para a sua população.  Lá não havia propriedade privada da terra. Durante séculos a maior proprietária de terras era a Igreja e o Governo. Os próprios soviéticos nada poderiam fazer. Tampouco poderiam forçar o governo a confiscar terras da Igreja; nem investidores concordariam, porque seria uma heresia.

Uma luz iluminou o CEO da multinacional norte-americana.  Ele sugeriu negociar com a Igreja o arrendamento do terreno. O acordo foi assinado e até hoje, a fábrica envasadora funciona no terreno arrendado da Igreja. Ela foi construída em Gdyna a alguns quilômetros de Gdansk, centro da construção naval da Polônia e berço do movimento Solidariedade fundado por Lech Walesa, presente na cerimônia. A inauguração foi um grande acontecimento já que era o primeiro investimento de capital privado no Leste Europeu.

A festividade teve início com a missa de Ação de Graças na histórica Igreja de Santa Brígida, berço do movimento Solidariedade. Os bancos da frente foram reservados para a delegação norte-americana e seus convidados. Ninguém conseguiu entender o sermão do padre Jankowski em polonês, mas vieram traduzir o conteúdo.  O pároco explanou em detalhes os benefícios que a nova fábrica estaria trazendo, tais como novos empregos, melhores salários, revitalização da indústria e comércio e impostos pagos em dia, amenizando a falta de emprego e dinamizando a economia.

Na hora da coleta, o sacristão aproximou-se da extremidade do banco e esticou o braço com a bandeja de prata para Don Keough (católico americano) ex-presidente da empresa.  Ele tomou a bandeja do sacristão, colocou os dólares e entregou sorrindo para Neville Isdell (protestante irlandês) CEO da multinacional que, repetiu o gesto, entregando para Georg Fleischer (luterano alemão) vice-presidente da empresa na Europa. Em seguida, Andrew David (ortodoxo grego) engarrafador, olheiro dos investimentos do grupo no Leste Europeu e membro do Conselho. A seguir, a bandeja foi para Muhtar Kent (muçulmano turco) nascido nos Estados Unidos e CEO da empresa para, finalmente, ser entregue a Danny Moskovitz (judeu americano) consultor do Conselho da multinacional. Todos colaboraram com alegria, fazendo doações fartas, ajudando reduzir a hostilidade à livre iniciativa.

Aliás, sobre os méritos do Santo Padre mencionado no início temos a registrar o que disse o insuspeito Mikhail Gorbachev[1] que nem católico era:

– Sem o Papa João Paulo II não se pode entender o que aconteceu na Europa no final dos anos 80.

Seu jeito simples de ser, inclusive durante o seu cardinalato, possuía apenas três túnicas pretas rasgadas, quatro vermelhas e para seu hobby apenas um esqui e remos para a canoa. Não mudou seu estilo de vida e doava tudo que recebia. Incomodado com o rumo do mundo no final dos anos 80 e sentindo a insatisfação que se expandia no Leste Europeu, convocou um encontro de oração e jejum pela paz realizada em Assis em outubro de 1986 com a participação de todas as principais religiões do mundo. Repetiu a mensagem Urbi et Orbi no ano mariano por ocasião da Páscoa de 1988:

– Ora por todo o mundo, por toda a humanidade, por todos os povos! Ora pela paz no mundo, pela justiça! Ora pelos direitos humanos, especialmente pela liberdade religiosa, por todo o homem, cristão ou não cristão! Ora pela solidariedade dos povos do mundo inteiro!

Hoje entendemos porque, reunidos na Praça do Vaticano, durante suas exéquias, o povo estendeu cartazes com os dizeres Santo Súbito.

Contextualizando, conforme verificamos através da coleta da Missa de Ação de Graças, estava exercitado o ecumenismo.  Dentre os presentes muito poloneses que não podiam exercer livremente a sua fé, quaisquer que fosse, pois eram perseguidos até então pelo regime.

[1] Accattoli, Luigi. Karol Wojtyla o homem do final do milênio. Paulinas. São Paulo, 1999.

Colaboração: Ubirajara de Carvalho (Membro do Apostolado da Oração)

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