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A Vingança de Álvaro de Ataíde

O dito popular “A inveja é uma ……….” nunca foi tão verdadeira.

Mergulhado na inveja por ter sido substituído, Álvaro de Ataíde passou por cima da decisão da corte e do vice rei na viagem com o santo padre onde seria apresentado como embaixador de Portugal na China. Indignado, ele arrestou o barco de Diogo Pereira, retirou o leme para não navegar e expulsou a tripulação do navio.  Anulou o sonho do jesuíta Francisco Xavier na tentativa de iniciar a evangelização naquele grande império. Substituiu toda a tripulação e entregou a nau a Luís de Almeida com ordem para deixar o jesuíta no destino e regressar.  Prejudicou o santo padre e causou um enorme prejuízo a Diogo Pereira que realizou compras valiosas, paramentos caros e adiantou quarenta mil moedas de ouro para as despesas iniciais. Precariamente instalado na ilha de Sancião, Xavier dividia a pousada entre as diferentes cabanas dos comerciantes portugueses e nenhum deles saiam à noite, receando defrontar com os tigres que rondavam o acampamento. Numa dessas noites, ouvindo rugidos, Xavier saiu direto da cabana e deu de frente para três deles, fez a aspersão da água benta e ordenou que se afastassem em nome de Jesus Cristo; nenhum tigre tornou a aparecer.

Padre Xavier contava com o retorno de um mercador chinês que se comprometeu, mediante um valor adiantado, servir de intérprete para levá-lo até Cantão.  Sancião era um centro de contrabando e a maioria dos barcos pertencia a mercadores portugueses que exerciam o contrabando com vistas grossas dos fiscais do Império.  Xavier preferiu se instalar numa cabana rústica junto a praia e contou com a colaboração de companheiros para levantar uma pequena capela onde rezaria suas missas.  Ele atendia a todos que o procuravam e, não eram poucos, pois todos viviam de pirataria mercantil.  Convicto da viagem acordada, foi se despedir do capitão geral da frota que, coincidentemente, estava na ilha. O capitão fez um apelo ao padre:

– Meu caro padre, suplico-vos que espereis até que todos os navios portugueses tenham partido. Caso sejas retido em Cantão que é interdito a vosso projeto, as autoridades prenderão nossos homens, barcos e mercadorias e será a nossa ruína.

– Esperarei da melhor vontade capitão! Não tentarei chegar à China antes que todos os barcos portugueses tenham partido.

Enquanto permaneceu na ilha ele compartilhava as noites em diferentes cabanas porque todos queriam tê-lo junto a si.  Numa manhã quando celebrava missa deu por falta do espanhol Diogo Vaz.

– Onde está o meu hospedeiro?

– Santo padre, ele partiu sem avisar a ninguém.

– Pobre Vaz, teria melhor sorte se aguardasse receber o junco que comprou do chinês[1].

Xavier aproveitou a partida dos navios portugueses e escreveu cartas para os padres Barzeu e Peres, bem como para Diogo Pereira a quem procurava consolar pela perda de suas riquezas com o arresto de seu navio Santa Cruz por Álvaro de Ataíde. Ainda teve tempo para escrever duas longas cartas para seu superior Inácio de Loyola e para sua irmã Ana a serem remetidas para a Europa.

Enquanto Diogo Pereira vivia oculto em Malaca evitando a cólera de Ataíde (governador e intendente marítimo de Malaca), Xavier permanecia isolado em Sancião com a saída da frota mercantil. Apesar de contar com a dedicação de Antônio de Santa Fé e a tripulação do Santa Cruz, seu estado de saúde piorou muito. Luís de Almeida decidiu manter a nau fundeada. Ele solicitou a Antônio e Francisco de Aguiar para levá-lo de barco até a enfermaria da nau Santa Cruz. O capitão Luís de Almeida olhou aquele homem santo, amado por todo o Oriente, e consciente tratar-se de uma lenda viva, não conseguiu entender por que Ataíde desejava que fosse abandonado. Podendo ser preso ao regressar, Luís decidiu desobedecer e não sair de Sancião, mesmo que viesse a faltar víveres a bordo. O padre santo não resistindo ao balanço da nau, resolveu voltar para a cabana apesar do frio intenso. Coberto de carinho e atenção de todos que o cercam, olhou para Francisco de Aguiar e com ternura disse:

– Francisco, isto não será por muito tempo, até o dia 2 de dezembro eu terei a felicidade de deixar esta vida.

Como mencionado, Luís de Almeida já tinha decidido invernar na ilha e não abandonar o santo padre. Juntos estavam Antônio e Jorge Álvares que de passageiro transformara-se em enfermeiro; alojado numa tapera mal construída sem vedação e cobertura de galhos secos, retratava a própria miséria e privação a que Xavier vivenciava por opção. Antevendo o seu fim ele pede a Jorge Álvares para levar a capela portátil e seus livros para a nau e afirma:

Amanhã às duas horas morrerei!

No oitavo dia, duas horas da madrugada de sábado, dia 3 de dezembro de 1552, olhos fixo no crucifixo, ele adormeceu no Senhor.

Colaboração: Ubirajara de Carvalho (Membro do Apostolado da Oração)

[1] Internou-se na floresta para retirar madeira e foi morto por assaltantes.

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